Terra Firme
Poucas coisas incomodam tanto o bicho homem como a ausência de um chão firme.
Por mais seguras que sejam as viagens aéreas, especialmente se comparadas com o número de acidentes rodoviários, há sempre o inquietante facto de que, logo abaixo do avião, não existe nada. Por maior que seja a redundância nos elementos de segurança de uma aeronave, a mente humana continua a compreendê-la como uma máquina que, tal como qualquer outra, está sujeita a falhas. E uma falha a dez mil metros de altitude é dez mil vezes mais assustadora do que o motor de um carro falhar no meio de uma autoestrada.
Se um problema ocorre a meio do voo, não é possível descer do avião e apanhar outro, ou continuar a pé até a próxima cidadezinha, porque o homem, diferente dos pássaros, não foi feito para voar. Se o avião levasse apenas garças, elas poderiam simplesmente sair assim que surgisse um problema e bater as asas na direção pretendida enquanto o avião continuava rapidamente o seu caminho até o chão; perderiam, no máximo, as suas bagagens de porão.
Ao contrário da garça, o homem não se sente confortável longe do chão, mas, tal como a garça, o homem gosta de estar perto da água, em parte por necessidade. Ao lado, à beira, nas proximidades, na vizinhança da água; preferencialmente não sobre, e muito menos sob ela.
Se, por um lado, o ar é a ausência de chão, a água é uma espécie de não-chão, algo que não é sólido o suficiente para permitir caminhar sobre ela (salvo aquele senhor que acabou pregado na cruz), embora seja densa o suficiente para permitir que certos corpos flutuem. Qualquer pessoa que tenha estado tempo suficiente num barco para enfrentar uma tempestade já terá presenciado o milagre da evangelização de um ateu em tempo recorde. Ao contrário do ar, a natureza semissólida do mar permite um fenómeno curioso que poderia ser descrito como se este não-chão estivesse vivo e se movimentasse ao seu bel-prazer, sendo inclusive constantemente distraído pelos caprichos da Lua. Pior do que não haver chão, é haver um chão com vida própria e uma personalidade imprevisível. Poucas coisas fazem um homem sentir-se tão pequeno e tão esquecido por Deus como estar dentro de um barco no meio de uma tempestade com nada mais à vista senão paredes itinerantes de água salgada.
Há apenas dois momentos em que a água se assemelha ao chão: quando está congelada (e a cada ano que passa há menos desse tipo) ou quando um corpo — digamos, uma pessoa — cai de uma altura considerável — digamos, de um avião — e se choca com a água em alta velocidade. De acordo com a física, isso acontece devido à resistência da água e à tensão superficial, que transforma uma fina película em algo tão duro quanto um muro de concreto para um objeto em alta velocidade descendente. Se o corpo chegasse com calma, a água acolhê-lo-ia com todo o prazer e suavidade; mas, pela enorme dificuldade em sair rapidamente do caminho, acaba por abraçá-lo com a subtileza de um pavimento húmido.
O homem não foi feito para abraçar pavimentos, salvo ocasionalmente quando sob o efeito de certas substâncias, e ainda assim com resultados tendencialmente nocivos ou que acabam por deixar marcas desagradáveis que, no melhor dos casos, se tornam boas anedotas.
Não, o homem foi feito para pisar sobre o pavimento, sobre a terra batida e sólida. Ninguém gosta de caminhar na areia fofa da praia, não mais do que vinte passos, isso é uma invenção romântica dos filmes de Hollywood. Ninguém gosta de caminhar no lodo pegajoso e de ouvir o barulho que o calçado faz ao descolar-se, que injeta no nosso sangue, um passo de cada vez, o medo de ter de continuar descalço. Ninguém gosta de atravessar aquelas pontes feitas de corda e de madeira que balançam a cada passo, especialmente quando alguma criança de nove anos que ainda não compreende bem o significado de finitude decide pôr aquilo a balançar de um lado para o outro.
Acima de tudo, ninguém gosta nem um pouco quando o chão sólido de concreto do edifício onde trabalha decide começar a tremer como um gigante em plena convulsão. Ninguém aprecia a noção de que esta estrutura incrivelmente rija possa parecer subitamente tão frágil pela simples casualidade de estar pregada num pedaço de terra que decidiu esfregar-se contra outro pedaço de terra, ambos de magnitude continental, mesmo que apenas por alguns longos e intermináveis segundos.
E é por isso, estimado chefe, que tive de sair à pressa no meio da reunião, antes que alguém notasse o cheiro da vergonha que me escorria lentamente pelas pernas, e que me obrigou a retornar à casa em busca da dignidade que só um par de cuecas limpas pode proporcionar.
O bom chão; dormir no chão. Morrer, descansar no bom úmido chão, não mais imprudentes, não mais aflitos, não mais aflitos! - Rubem Braga
Incentivos para escrever
Strange Pilgrims: Contos, ensaios e Flash Fiction. Em inglês. Até 30 de novembro.
Escrita de Terror I, oficina online com Pedro Lucas Martins.
Escrever Diálogos e Cenas de Ação, oficina online com Bruno Martins Soares.
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Edição de aniversário da Brodom Vault, com Flash Fiction de vários autores. Participo com Eulogy for the Last Human, um texto que cabe num post de rede social.
Correio literário da Noemi Jaffe onde ela comenta sobre medo da IA.
O Jogo Infinito, onde comparo a forma de Infinite Jest e Rayuela.


